Tour Europa 2009

Premonição

1 de Agosto de 2009, Porto

A nobre e abandonada Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto foi, pouco a pouco, recebendo os bravos trovadores.

Ao longe, o sino da igreja batia as dezasseis. Bagagens, mantimentos e instrumentos povoavam já a Caravela. No cais, as despedidas, as recomendações e olhos atentos. Ameaçando cobrir o sol que aquecia os corações aventureiros, uma nuvem escura foi avistada. Da proa, da popa, a bombordo e a estibordo um brilho resplandecente camuflava uma quilha menos digna, a tempo desmascarada. Retardados pela troca, acomodaram-se então numa recatada Transportadora.

Mais segura, mais académica, partiu, então, a comitiva: oito nobres cavaleiros, seus quatro fiéis escudeiros e dois inseparáveis guias. Para trás as badaladas do fim do dia. Para a frente as fronteiras da imortalidade. Ao lado, escondida pela noite, velava a nuvem, ocultando as estrelas…

Portas fechadas

2 de Agosto de 2009, Barcelona

Colombo anunciou a sua chegada à capital Catalã. De armas na mão, poemas na voz, trajados de preto, atracaram no porto. Às dúzias o povo apresentava-se para saudar os audazes. Aplausos e tilintares entrelaçavam-se nos acordes e absortos na música não viram, os destemidos, o sol cobrir-se. A nuvem alcançara finalmente o seu paço e ganhara forma. Disfarçada de autoridade, dissolveu as hordas e encaminhou os cantadores para os seus aposentos. La Rambla, que se mostrara uma suite real, cedo se revelou uma cela espaçosa onde as visitas eram permitidas mas pouco generosas.

Persistentes, procuraram escapulir-se a conselho de duas fadas. Porém, se eram feiticeiras, da candura das fadas nada tinham e após um longo trilho entre as ruelas dum bairro deslocado o regresso à cela era exigido. Conheceram oriundos de todos os planetas. Procuraram, como eles, a felicidade entre grades. Não a encontrando entenderam que a liberdade dependia dos seus braços, dos seus pés, de terminar a jornada e partir.

3 de Agosto de 2009, Barcelona | Côte d’Azur | Ventimiglia

Recobradas as forças, pelo fogo e pelo sono, içaram-se as velas ao levantar duma tardia madrugada. Adeu em catalão, bonsoire em francófono. Sim, a fama da cordialidade da Côte d’Azur pintava um cenário fantástico. De fantasia era justo, de realidade carente. E, se uma avenida cigana se mostrou ingrata, toda a costa azul se mostrou cheia de si. Portas fechadas em todas as casas, pedras da calçada que os enxotava. A nuvem sombria ganhava terreno... A retirada não foi opção, foi surpresa e imposição. Assim, Baco em socorro abrigou-os em casa, e à entrada da Bota do Mediterrâneo, petiscaram e pernoitaram.

Braço de ferro

4 de Agosto de 2009, Ventimiglia | Génova | Florença

O claro céu e a salgada maresia acariciaram as faces cansadas dos cansados. Um tom familiar pintava a paisagem que os acordava. Uma esperança pairava no ar.

Génova falou do Porto. De portugueses navegadores. De viagens, de batalhas, de fins incertos, de firmeza, de honras conquistadas. Por entre o cinzento das ruelas encontraram aliados na gente generosa.

A sombra, que regozijava precocemente, inquietou-se ao ouvir rumores de uma difusa melodia. Logo enviou os seus batedores para se certificar que não passavam de boatos. Insistiria aquela ‘orchestra di ragazzi’ em cumprir o intento de domar a Europa? Subestimando a força dos laços, não previram o braço forte que os afrontou. Animado pela cadência das cordas, o povo genovês valeu os nómadas lusitanos e afugentou o inimigo. Galgaram com eles as vielas e, depois de uma feliz jornada, despediram-se gratos. Zarparam, então os valentes, ambicionando o ouro florentino.

Cofre fechado

5 de Agosto de 2009, Florença

O calor da toscana despertou os bardos. O berço do Renascimento refulgia na outra margem do Arno. Despretensiosos, passaram a velha ponte. A guarda sombria esperava. Em cada esquina, em cada praça, em carruagens ou em trupes. Ansiosos, olhando os cofres translúcidos, tentaram a sua sorte mas o acesso foi negado. Era precisa uma chave. Seria obtida nem que mediante sacrifício e o sacrifício foi pedido. Assim retrocederam serenos, ou para o sossego ou para a deambulação.

Mas há noite, reino de morcegos, a cidade deserta oferecia outros tesouros. Passo a passo bebia-se cultura. Entre as quelhas serenatas lusíadas. E no largo, como eles, uma festa ao seu estilo. De leste, outros tunos suavam e pediam para soar. Suavemente uma cumplicidade fraternal dançava no ar. Um jantar só marcado. Um aperto de mãos.

6 de Agosto de 2009, Florença

Alvorada lenta e subida a parada. O sacrifício que a chave exigia estava muito aquém das oportunidades. Perduraria o cofre interdito. Almoço em fatais companhias, passeios escusados e mudada a rota. A cidade inundada era refém do prenúncio e terras onde o ouro pendia em madeixas encantavam o desejo. Porquê esperar?

Diáspora

7 de Agosto de 2009, Liubliana

Fora da União? Claro, mas com autorização! Sem carta de foral é que não… À Transportadora contestaram o acesso, ao Espaçoso abriram alas. Só para metros depois apreenderem o prado mágico. E uma linha no chão quebrou a nobre liga. De lá sabem-se rumores de princesas encantadas, costas areadas e licores dos deuses. Entre os trilhos eslovenos fica o sabor a sal do Mar Adriático, a ratatouille e arroz de tomate.

8 de Agosto de 2009, Liubliana

A Tuna deambulava pela Europa já há uma semana. As suas pegadas temperavam um sabor a pouco, quer nos seus corações, quer nos corações do povo que fugazmente jubilava com a sua passagem. Retirados num castelo, perdido num mar, reforjaram os seus corpos.

Um novo corpo divino, nascia sem saber, num reencontro. Ainda que criança, a sua voz tinha mais força que a sombra e a capital mais ocidental das orientais vergou-se à sua passagem. Uma tarde de cantar e encantar trouxe das tocas os mais genuínos dos ouvintes numa alegria saudosista. Antes de adormecer princesas guerreiras brindavam ou desfilavam, exaltando a nova divindade.

Elixires

9 de Agosto de 2009, Munique

A despedida da que poderia ter sido a mais cordial nação foi como um apunhalar traiçoeiro que nem 30 moedas de prata pagaram. Certamente uma manobra da astuciosa sombra que já não ousava encarar os destemidos.

Vales profundos, florestas enfeitiçadas, terras de druidas e o reino germano saúda os paladinos. A taverna das pedras duras acolhe-os para uma pequena prova dos mais requintados elixires que deram origem à povoação deixando intrincado o desejo de mais.

Mesmo que ainda com desígnios imensos por cumprir, a Tuna estava maior, mais coesa e capaz de reconhecer o esforço dos fiéis escudeiros. Ora, predominante foi o de um dito peixe que se vendo fora de água se mostrou infatigável, e dentro em casa. Como tal, Munique não foi lugar mais digno que a sua distinção e alterou-se a estrutura da comitiva, contando os cavaleiros mais um na sua companhia.

10 de Agosto de 2009, Munique

Não podia ser! Ganhando força os adversários, tinha a nuvem que agir e desterrou a sua filha chuva para que afugentasse as gentes. Como os aguaceiros também as declamações eram breves. Os alforges, discretamente pesavam mais e mais e para os carregar para outras paragens era necessário um atestar com o verdadeiro elixir, dos verdadeiros druidas. E como eles, muitos brindaram em fontes que jorravam ouro.

Glória

11 de Agosto de 2009, Paris

De uma longa viagem a caminho do último cantão a seduzir sobram sobressaltos e sonhos de soslaios. Um acampamento de batalha e um arrancar abreviado.

12 de Agosto de 2009, Paris

No bosque de Bolonha vivam muitas tribos e entre elas fixaram-se, nos últimos dias, os nossos viajantes. Na capital francesa eram como peões sobre tabuleiro de xadrez. E, em frente à Torre, o fracasso foi flagrante. Não que se sentisse por perto a presença sombria. Essa conformava-se com a sua incapacidade perante os obstinados estudantes. Ainda tentaram falar com o famoso corcunda mas tinha abandonado aquelas paragens.

Regressados ao bosque, a pedido de muitas famílias jorraram sons medievais e histórias de vidas e de viagens. Depois fogo e um festim de porco grelhado. Ainda alguns foram em busca de um mítico moinho que dizem ser vermelho mas ficaram-se apenas por brincadeiras perto dele…

13 de Agosto de 2009, Paris

Aprontavam-se os nómadas para regressar à Invicta. Antes um despedir de Paris. Num monte com nome de bicho, por ruelas de artistas e com a cidade aos pés soltavam os últimos acordes.

Devem estar a perguntar-se: mas que história épica é esta que não faz referência a amores singulares, histórias intemporais de paixão e corações derramados?

Ora, estarão iludidos se pensam que os descendentes de D. Pedro e D. Inês vivem alheados destes reinos. Entre as vielas dos pintores, deu-se um encontro fortuito. De uma república distante, por ocasiões diplomáticas, encontrava-se por lá a passear uma princesa. Ouvindo tão prodigiosa melodia pois logo se enfeitiçou e do líder se apaixonou. Foram serenatas, foram memórias de outros pedidos, foram jantares e ternuras sob a luz mágica de Paris.

À contrafeita despedida partiram, então, as carroças que, à vista mais vazias, se encontravam secretamente mais cheias.

14 de Agosto de 2009, Paris

O último caminho levou o seu tempo. Tempo de quem não pretendia regressar apressado ao lugar de onde partira. Ainda se apontou uma celebração em acção de graças a ter lugar numa cidade galega nortenha, mas lá chegando tardiamente um abrigo sedentário chamou mais alto.

15 de Agosto de 2009, Porto

Assim, chegaram na madrugada de um décimo quinto dia de aventuras. Ouro nos bolsos, corações espartilhados pelas terras, vozes amainadas e um desejo latejante de contar as histórias ao mundo. E partir de novo, sempre…

 

Tuno Catholicus Fatum